Semana passada, um corretor me ligou desesperado. Inquilino estava saindo, deixou a sacada destruída — piso solto, infiltração na parede, vidro trincado. O problema? Na vistoria de entrada, ele fotografou sala, quartos, cozinha. Sacada? Passou batido.

Resultado: R$ 3.800 de prejuízo que ele teve que tirar do bolso.

Essa história se repete toda semana. Corretores focam nos ambientes principais e esquecem os detalhes que geram as maiores dores de cabeça. Vou listar exatamente o que você não pode deixar passar.

1. Área de serviço — o campeão de problemas

É o ambiente mais esquecido e o que mais gera conflito na saída. Já vi discussões homéricas por causa de:

  • Tanque trincado que ninguém fotografou
  • Torneira pingando que “já estava assim”
  • Infiltração atrás da máquina de lavar
  • Azulejos soltos na parede
  • Ralos entupidos

O que fotografar: - Tanque inteiro (close nas bordas e cantos) - Todas as torneiras e registros - Piso completo, principalmente nos cantos - Parede atrás de onde fica a máquina - Ralo (tire uma foto de cima mostrando se tem água parada) - Varal ou suporte de teto

Na prática: tire no mínimo 6 fotos da área de serviço. Parece exagero, mas você vai me agradecer.

2. Sacada e varandas

Sacada é área externa, então muita gente trata como “menos importante”. Erro gravíssimo.

Problemas que já vi: - Piso de deck que estava bom e saiu podre - Vidros com trinca microscópica que viraram buraco - Infiltração na parede externa (que desce pro apartamento de baixo) - Ralos entupidos que causam alagamento - Grades e proteções soltas

O que fotografar: - Piso inteiro em detalhes (principalmente os cantos) - Cada vidro ou proteção (de perto, contra a luz pra ver trincas) - Paredes externas - Ralo e sistema de escoamento - Estrutura de fixação da grade/rede - Teto (se for sacada coberta)

Dica de ouro: tire foto do ralo da sacada com água correndo. Se estiver entupido, vai aparecer na hora.

3. Box do banheiro

Todo mundo fotografa o banheiro. Quase ninguém fotografa o box direito.

Checklist do box: - Cada vidro (principalmente as quinas) - Perfil de alumínio e borrachas de vedação - Puxador e dobradiças - Chuveiro e ducha (close no acabamento) - Registro do chuveiro - Ramal de água (aqueles canos cromados) - Rejunte do piso dentro do box - Ralo (close de cima, mostrando o interior)

Box quebrado ou com infiltração custa caro. Uma porta de vidro nova sai por R$ 800 a R$ 1.500. Se você não tiver foto provando que já estava ruim, o proprietário vai querer cobrar.

4. Tetos e forros

95% dos corretores só olham pra frente e pros lados. Ninguém olha pra cima.

O que procurar no teto: - Manchas de infiltração (principalmente perto de banheiros e cozinha) - Fissuras e trincas - Bolhas na pintura - Mofo nos cantos - Luminárias (estado e funcionamento) - Molduras de gesso (se tiver)

Infiltração no teto é briga certa. Se estava lá antes do inquilino entrar e você não fotografou, vai ter que provar que não foi ele que causou. Boa sorte.

5. Parte de trás de portas e armários

Porta todo mundo fotografa. A parte de trás da porta, ninguém.

O que pode dar problema: - Arranhões de pet na parte interna - Batida da maçaneta na parede (aquele buraco redondo) - Fundo de armário empenado ou mofado - Prateleiras quebradas ou tortas - Dobradiças enferrujadas

Tire foto da parte de trás de TODAS as portas. Principalmente se o inquilino tiver cachorro ou gato. Já vi porta nova custando R$ 600 porque o corretor não fotografou o estrago que já existia.

6. Área de circulação (corredores e halls)

Corredores parecem ambientes neutros. Mas são passagem obrigatória e sofrem muito.

O que olhar: - Piso (principalmente os rodapés) - Interruptores e tomadas - Pintura das paredes (principalmente em quinas) - Portas de armários embutidos (se tiver) - Luminária do corredor

Foco especial nas quinas das paredes. Mudança sempre bate móvel ali. Se já estava marcado, fotografe.

7. Áreas técnicas (quadro de luz, abrigo de gás, medidores)

É chato, é entediante, mas pode salvar você.

O que documentar: - Quadro de luz (disjuntores e estado geral) - Medidor de água (leitura e estado) - Medidor de gás (se tiver) - Caixa de gás (se for individual) - Registros gerais de água - Interfone e campainha

Já vi proprietário tentar cobrar R$ 450 de “troca de disjuntor” que nunca aconteceu. A foto do quadro elétrico na entrada salvou o corretor.

Roteiro prático: ordem da vistoria completa

Depois de fazer mais de 2.000 vistorias, criei uma ordem que não deixa nada passar:

  1. Tire fotos panorâmicas de cada cômodo
  2. Fotografe detalhes (teto, piso, paredes, janelas)
  3. Abra TODAS as portas de armário
  4. Vire TODAS as portas pelo avesso
  5. Entre em TODOS os boxes
  6. Suba em TODAS as sacadas/varandas
  7. Olhe dentro do tanque e em baixo da pia
  8. Fotografe áreas técnicas
  9. Ligue TODAS as torneiras e descargas
  10. Acenda TODAS as luzes e interruptores

Parece muito? É. Mas demora 20 minutos a mais e te poupa semanas de dor de cabeça.

O erro que custa mais caro

O maior erro não é esquecer um ambiente. É achar que “está tudo ok, não precisa de tanta foto”.

A vistoria não é pra quando está tudo certo. É justamente pra quando dá errado.

Você não faz seguro do carro torcendo pra bater. Mas quando bate, agradece por ter feito.

Vistorias detalhadas funcionam igual. No dia que o inquilino entregar o imóvel destruído e você tiver 150 fotos mostrando que já estava assim, você vai entender o valor de cada foto “desnecessária” que tirou.

Quanto custa esquecer um detalhe

Vamos aos números reais de casos que atendi em 2026:

  • Sacada não vistoriada: R$ 3.800 de prejuízo
  • Box esquecido: R$ 1.200 (vidro + mão de obra)
  • Área de serviço superficial: R$ 890 (tanque + torneira + azulejo)
  • Teto não fotografado: R$ 2.400 (tratamento de infiltração)
  • Porta sem foto do verso: R$ 600 (porta nova)

Total de prejuízo em casos reais: R$ 8.890.

Tempo que levaria pra fotografar tudo direito? 15 minutos.

Faça as contas.

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