Semana passada atendi uma proprietária desesperada. O inquilino estava saindo e se recusava a pagar R$ 3.200 de danos no apartamento. A alegação dele? “Isso já estava assim quando entrei.”

O problema? A vistoria de entrada tinha 6 fotos borradas e descrições genéricas tipo “piso em bom estado”. Na Justiça, não vale nada.

Em 18 anos lidando com locação, já vi centenas de discussões na saída do imóvel. E adivinha? As reclamações dos inquilinos seguem um padrão previsível. Vou mostrar as 7 mais comuns e como você se blinda contra cada uma.

1. “Esse desgaste já existia quando entrei”

Essa é campeã absoluta. O inquilino alega que aquele risco no piso, a mancha na parede ou o armário torto já estavam lá desde o início.

Como se proteger:

Documente TUDO na entrada. E quando digo tudo, é tudo mesmo:

  • Foto geral + foto de detalhe de cada cômodo
  • Registre arranhões, manchas, desgastes — por menores que sejam
  • Descreva com precisão: “risco de 8cm na porta do quarto 2, lado esquerdo, altura 1,20m”
  • Data visível nas fotos (câmera ou app com timestamp)

Tive um caso em 2024 onde o inquilino destruiu a porta do banheiro. Mas como eu tinha foto detalhada mostrando que ela estava perfeita na entrada, ele pagou os R$ 850 sem discussão.

2. “Isso é desgaste natural do tempo”

O inquilino tenta empurrar danos como “uso normal”. Já ouvi isso para:

  • Torneira quebrada (“ela ficou frouxa sozinha”)
  • Piso manchado de gordura (“cozinhei normalmente”)
  • Parede com buracos de quadros (“pendurei uns quadrinhos só”)

A linha divisória:

Desgaste natural = pintura que desbotou após 3 anos, rejunte que escureceu.

Dano do inquilino = buraco na parede, torneira arrancada, queimadura no piso.

Como se proteger:

Na vistoria de entrada, diferencie claramente:

  • Estado atual: “pintura com 2 anos, tom levemente desbotado”
  • Danos existentes: “mancha de umidade 20x15cm atrás do sofá”

Assim você mostra que sabia distinguir o que era desgaste e o que era dano — o que der errado depois é responsabilidade do inquilino.

3. “Vocês estão me cobrando mais caro que o mercado”

Inquilino contesta o orçamento de reparo. Quer pagar R$ 200 pela pintura quando você orçou R$ 1.500.

Como se proteger:

Anexe 2-3 orçamentos de profissionais ao laudo de saída. Mostre que você foi ao mercado, pesquisou, e está cobrando o preço justo.

Guarde os contatos. Se o inquilino contestar judicialmente, você apresenta os orçamentos originais com CNPJ e tudo.

4. “Não tenho dinheiro agora para pagar”

O inquilino reconhece o dano mas arruma desculpa financeira. Pede parcelamento, desconto, prazo.

A real:

Esse é problema do inquilino, não seu. O depósito caução existe exatamente para isso.

Como se proteger:

No contrato, deixe CLARO:

  • Prazo para vistoria de saída (ex: até 5 dias após entrega das chaves)
  • Depósito caução será usado para reparos comprovados
  • Saldo devolvido em até 30 dias
  • Se danos excederem caução, inquilino paga a diferença

Documentação impecável = execução rápida se precisar acionar a Justiça.

5. “A vistoria de entrada estava incompleta”

O inquilino alega que você não registrou tudo. E se a vistoria realmente foi meia-boca, ele tem razão.

Já vi laudo de entrada com:

  • 8 fotos de um apartamento de 3 quartos
  • Descrições tipo “imóvel em bom estado”
  • Nenhuma menção a torneiras, registros, interruptores

Como se proteger:

Vistoria completa significa:

  • Mínimo 25-30 fotos (apartamento médio)
  • Casa? 40-50 fotos
  • Todos os cômodos, ângulos diferentes
  • Detalhe de: pisos, paredes, tetos, portas, janelas, metais, louças, armários
  • Área externa completa

O inquilino assina concordando com aquele estado. Se vier reclamar depois, você mostra o laudo assinado.

6. “Você está me culpando por problema estrutural”

Inquilino tenta jogar a responsabilidade de volta. Aquela infiltração? “É problema da laje, não minha culpa.”

Como diferenciar:

Problema estrutural: infiltração que vem de fora, trinca estrutural que evolui com o tempo.

Problema causado: infiltração porque entupiu ralo do banheiro e água vazou pela parede.

Como se proteger:

Na vistoria de entrada:

  • Registre sinais de umidade existentes
  • Teste ralos e escoamento
  • Verifique funcionamento de calhas (em casas)

Se algo estrutural piorar durante a locação, você tem como provar que era problema pré-existente.

7. “Pintei e reformei por conta própria, isso conta como crédito”

Inquilino fez reformas sem autorização e acha que merece desconto na saída.

A verdade dura:

Reforma não autorizada = risco de ter que desfazer tudo. Mesmo que tenha ficado “bonita”.

Como se proteger:

Contrato deve prever:

  • Qualquer alteração precisa de autorização prévia POR ESCRITO
  • Inquilino deve devolver o imóvel no estado original
  • Reformas não autorizadas podem ser desfeitas às custas do inquilino

Se o inquilino pintou sem avisar? Pode cobrar para repintar na cor original. Simples assim.

O que aprendi em 18 anos

Conflito na saída do imóvel quase sempre começa na entrada. Vistoria meia-boca = dor de cabeça garantida.

Já perdi count de quantos processos eu evitei só por ter documentação fotográfica detalhada. O juiz olha as fotos, compara entrada e saída, e bate o martelo em 5 minutos.

Proprietário que economiza R$ 200 numa vistoria profissional acaba gastando R$ 5.000 em advogado. Não faz sentido.

Checklist anti-reclamação

Use isso em TODA vistoria de entrada:

  • [ ] Mínimo 25-30 fotos com data visível
  • [ ] Descrição específica de danos existentes (tamanho, localização)
  • [ ] Teste de funcionamento: torneiras, registros, chuveiro, descarga
  • [ ] Inspeção de: pisos, paredes, tetos, portas, janelas, armários
  • [ ] Área externa completa (se houver)
  • [ ] Medidores de água, luz e gás com leitura registrada
  • [ ] Chaves conferidas e quantidade anotada
  • [ ] Assinatura do inquilino em todas as páginas

Siga essa lista e você elimina 90% das reclamações comuns.

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