Você contratou a reforma, acompanhou o andamento, pagou as parcelas. Agora o empreiteiro diz que está tudo pronto. Mas antes de dar o aceite final e liberar o pagamento, é fundamental fazer uma vistoria detalhada.

A Lei do Inquilinato é clara nesse ponto: quem entrega o imóvel reformado responde pelos defeitos durante certo período. Mas se você não documentar problemas logo na entrega, fica difícil provar depois que aquela infiltração ou rachadura já existia.

Na prática jurídica, vemos muito isso acontecer. Proprietários que aceitaram a obra sem verificar direito e descobriram defeitos graves semanas depois. Sem documentação fotográfica da vistoria inicial, perderam processos ou tiveram que arcar com novos reparos do próprio bolso.

Antes de começar a vistoria

Peça ao responsável pela obra que limpe completamente o imóvel. Entulho, pó de obra e sujeira escondem problemas. Você precisa ver as superfícies limpas para avaliar acabamento.

Se possível, faça a vistoria com luz natural e também à noite, com todas as luzes acesas. Defeitos de pintura e nivelamento aparecem diferente dependendo da iluminação.

Tenha em mãos: - O projeto ou orçamento detalhado do que foi contratado - Câmera do celular carregada (você vai tirar muitas fotos) - Trena ou fita métrica - Nível a laser ou de bolha (se tiver) - Bloco de notas

Estrutura e acabamentos: o que não pode passar

Paredes e tetos

Passe a mão nas paredes rebocadas. A superfície deve estar lisa, sem ondulações ou irregularidades que você sinta ao toque. Olhe de baixo para cima, em ângulo — assim você enxerga ondas que não aparecem de frente.

Verifique se há rachaduras. Fissuras finas em cantos de portas e janelas são comuns (movimentação natural), mas rachaduras largas ou que atravessam a parede indicam problema estrutural.

A pintura está uniforme? Marcas de rolo, diferenças de tonalidade ou áreas com textura diferente mostram aplicação malfeita. Tinta de qualidade, bem aplicada, fica homogênea.

Pisos

Caminhe por todos os cômodos prestando atenção ao som. Piso que estala ou cede pode estar mal assentado.

No caso de porcelanato ou cerâmica, bata levemente com os nós dos dedos em vários pontos. Som oco indica que há espaço vazio embaixo — descolamento ou falta de argamassa. Essas peças vão quebrar com pouco tempo de uso.

Os rejuntes estão nivelados com o piso? Rejunte afundado ou irregular junta sujeira e estraga rápido.

Use a trena para medir se o piso está alinhado com as paredes. Cortes tortos nas bordas denunciam instalação amadora.

Portas e janelas

Abra e feche todas. O movimento deve ser suave, sem trancos. Porta que arrasta no chão ou trava no batente está mal instalada.

Verifique se as fechaduras funcionam perfeitamente. Trave e destrave várias vezes.

As janelas vedam bem quando fechadas? Passe a mão nos cantos — não pode entrar vento. Vidro mal vedado deixa água entrar quando chove.

Confira se os acabamentos (guarnições, rodapés) estão bem fixados e sem frestas. Falta de silicone ou má fixação permite entrada de insetos e umidade.

Instalações: problemas que custam caro depois

Sistema elétrico

Ligue todos os interruptores e teste cada tomada com um carregador de celular. Anote se alguma não funciona.

Se a reforma incluiu quadro de disjuntores novo, peça ao eletricista que explique o que cada um protege e faça um teste desligando-os um por um para confirmar.

Observe se os espelhos de tomadas e interruptores estão bem nivelados e fixados. Espelho torto ou solto indica serviço mal acabado, e pode ser sinal de instalação elétrica malfeita por dentro também.

Hidráulica

Abra todas as torneiras (água quente e fria) e observe a pressão. Pressão fraca ou irregular pode indicar entupimento nas tubulações novas ou conexões malfeitas.

Deixe cada torneira aberta por alguns minutos e olhe embaixo da pia/tanque. Qualquer gota de água é vazamento — não aceite.

Dê descarga em todos os vasos sanitários. A água deve descer com força e parar completamente. Se continuar escorrendo, há problema na válvula de descarga.

Vazamento em vaso sanitário é um dos defeitos mais caros em condomínios — pode gerar conta de água de milhares de reais em poucos meses sem você perceber.

Infiltrações e umidade

Olhe o teto de todos os banheiros e da cozinha. Manchas amareladas ou escuras indicam infiltração. Se a reforma prometeu resolver isso, o problema ainda existe.

Verifique os cantos das paredes externas. Mofo, tinta descascando ou parede com aspecto úmido mostram que a impermeabilização falhou.

Em áreas molhadas (box, área de serviço), jogue água no piso e observe se ela escorre corretamente para o ralo. Empoçamento significa caimento inadequado — vai acumular água e criar mofo.

Registrando tudo: a proteção começa antes do aceite

Tire foto de cada problema encontrado. Foto de longe mostrando onde fica no cômodo, e foto de perto mostrando o defeito em detalhe.

Anote a data e hora em cada registro. Se possível, filme também — vídeo mostra melhor alguns problemas como torneira pingando ou porta que não fecha direito.

Faça uma lista por escrito de todos os pontos que precisam correção. Seja específico: em vez de “parede com defeito”, escreva “parede da sala, ao lado da janela, com rachadura de 15cm”.

Envie essa lista para o responsável pela obra por WhatsApp ou e-mail — você precisa de prova que comunicou os problemas antes do aceite final.

O que fazer com os defeitos encontrados

Não libere o pagamento final até que todos os problemas sejam corrigidos. A proteção começa antes do contrato — ou nesse caso, antes de você dar o aceite definitivo.

Estabeleça prazo para cada correção. Pequenos ajustes podem ser resolvidos em dias. Problemas estruturais ou de infiltração exigem mais tempo, mas precisam ter prazo definido.

Depois que corrigirem, faça nova vistoria completa. Não confie que arrumaram sem verificar pessoalmente.

Se o empreiteiro se recusar a corrigir defeitos que estavam no escopo combinado, você tem respaldo legal para reter o pagamento proporcional. Sem documentação, fica difícil provar que você comunicou os problemas a tempo.

Vistoria de imóvel reformado para locação

Se você reformou para alugar, a vistoria pós-obra serve também como base para a vistoria de entrada do inquilino.

Documente o estado impecável que você está entregando. Fotos detalhadas de cada cômodo, de cada acabamento, de todas as instalações funcionando.

Isso protege você caso o inquilino alegue depois que já recebeu o imóvel com defeitos. A comparação entre a vistoria de entrada e a de saída mostra exatamente o que foi danificado durante a locação.

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