Semana passada recebi a ligação de um proprietário desesperado. Três meses depois de entregar o imóvel, o inquilino avisou: cupim em todos os armários da cozinha. O problema? A vistoria de entrada não registrou nada. Agora ele vai arcar com R$ 8 mil de dedetização e troca de móveis.

Cupim é silencioso até virar um problemão. Na prática, 70% dos imóveis que passo pela vistoria apresentam algum sinal de infestação — mas a maioria dos corretores não sabe identificar.

Os sinais que você precisa conhecer

Cupim deixa rastro. Basta saber onde olhar.

Pó de serragem no chão — Você abre o armário e vê um pozinho fino embaixo. Pode parecer sujeira comum, mas é resíduo de madeira. Cupins fazem túneis internos e expelem o material.

Trilhas de terra na parede — Aquelas linhas finas marrons que sobem pela parede não são sujeira. São caminhos que os cupins constroem para se proteger da luz enquanto circulam.

Madeira oca ao bater — Bata de leve com os dedos em rodapés, batentes, armários embutidos. Se o som for oco, tem risco. Madeira sólida tem som fechado.

Asas de cupim no chão — Especialmente perto de janelas e portas. Na revoada (outubro a dezembro no Brasil), os cupins perdem as asas. Se você vê várias no mesmo cômodo, a colônia está ativa.

Pintura estufada ou rachada — Cupins comem por dentro. A superfície pintada fica intacta até estufar. Passe a mão — se mexer ou afundar, investigue.

Onde procurar na vistoria

Já vi cupim em lugares absurdos. Box de banheiro, porta de MDF, até em piso laminado. Mas tem lugares críticos:

Cozinha e área de serviço — Umidade atrai cupim. Olhe embaixo da pia, atrás da máquina de lavar, dentro dos armários.

Quartos com armários embutidos — Principalmente os antigos de madeira maciça. Abra as gavetas, tire tudo de dentro, olhe o fundo e as laterais.

Rodapés e batentes — Passe a mão. Se estiver fofo ou quebradiço, tem problema.

Forro de madeira ou PVC — Cupim sobe. Se o imóvel tem forro, use uma lanterna e olhe pelos cantos.

Área externa com madeira — Deck, pergolado, portão de madeira. Sol e chuva fragilizam, cupim aproveita.

Como registrar no laudo

Documentar cupim é fácil — se você souber o que escrever.

Seja específico no local — Não escreva “sinais de cupim na cozinha”. Escreva: “Armário inferior esquerdo da pia apresenta pó de serragem e trilha de cupim na lateral interna”.

Descreva o estágio — Sinais iniciais (pó, trilha) ou infestação avançada (madeira oca, estrutura comprometida). Isso define responsabilidade.

Tire foto com régua ou referência — Uma foto borrada de pó no chão não serve de prova. Use uma moeda ou caneta ao lado para dar escala. Fotografe a trilha de cupim bem de perto.

Registre o estado de cada móvel — Se o apartamento vem mobiliado, fotografe dentro de cada armário. Abra as gavetas, tire foto do fundo, das laterais. Já me salvou três vezes de processos.

Anote se há tratamento recente — Às vezes o proprietário fez dedetização antes de alugar. Pergunte e registre a data. Se cupim voltar, a responsabilidade muda.

O que fazer quando encontra

Cupim não é motivo para recusar o imóvel. É motivo para documentar e negociar.

Sinais leves — Registra no laudo, avisa o proprietário, combina monitoramento na vistoria de saída. Não impede a locação.

Infestação média — Negocia tratamento antes da entrada ou desconto no aluguel. Deixa tudo documentado no contrato.

Infestação grave — Recomenda vistoria técnica com dedetizadora. Não assuma responsabilidade sozinho. Se a estrutura está comprometida, pode ser caso de perícia.

O erro que sai caro

Já vi corretor escrever no laudo: “Imóvel em bom estado, sem sinais de pragas”. Três meses depois, o inquilino manda foto de cupim destruindo o guarda-roupa.

O laudo dizia que estava tudo certo. Agora o proprietário cobra do corretor.

Cupim se multiplica rápido. Uma colônia pequena pode virar infestação em 60 dias. Se você não registrou na entrada, não tem como provar que já existia.

Checklist prático para a vistoria

  • Abrir TODOS os armários e gavetas
  • Bater de leve em rodapés e batentes
  • Verificar cantos de forro e teto
  • Procurar pó de serragem no chão
  • Fotografar qualquer trilha ou sinal suspeito
  • Anotar localização exata no laudo
  • Perguntar ao proprietário sobre tratamento anterior
  • Incluir fotos com escala (moeda, caneta)

Cupim é prova de negligência?

Não. Cupim acontece. Mas não documentar é negligência.

Se o laudo registrou sinais na entrada, o proprietário assume o tratamento. Se não registrou e aparece na saída, vira disputa — e você perde credibilidade.

Corretor que não documenta, perde. Simples assim.

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